6/02/2013

Palavras para que foram ditas...


                                  Querendo-se, em nome da Fazenda Real, extorquir-lhe uma confissão escrita de dívida, objetou com energia:  "Nada devo à Real Fazenda!

                     “Estavam as coisas neste pé, quando Martins Lustosa, voltando-se para a rua, ao sentir o galopar de cavalos, viu os cavalarianos que vinham em seu auxílio ao mando de seu filho e de seu cunhado. Era o momento preciso. 
              A  “pena de ganso” com a qual deveria firmar o documento de débito acabava de ser-lhe entregue. Ao sentir-se apoiado pelos recenvindos, segurou com a mão esquerda a pena, enquanto com a direita desembainhou o espadim, e, com gesto de quem  a aparava, fê-la em pedaços;  e, com o que lhe restou na mão, emergindo no tinteiro, inutilizou o documento, com grande espanto de todos.
                O juiz, escandalizado e encolerizado, reclama respeito e obediência à sua alta autoridade.

- Mas que é um juiz?  É acaso algum rei?  pergunta calmamente Lustosa.

- Um juiz, responde o interrogado arrebatadamente, é a mais alta autoridade e, no exercício de suas atribuições, vale tanto ou mais que El-Rei !
                Palavras para que foram ditas... era o que pretendia ouvir Lustosa, que imperiosamente exclama:

- Tome,  Sr. Escrivão, por termo as declarações deste biltre que diz que um juiz vale mais que El-Rei!   E, dirigindo-se para o auditório, diz:  Sirvam os senhores de testemunhas ao fato.  E voltando-se para o escrivão:  Sr. Escrivão, vamos ao termo!

                Viraram-se os papéis, o juiz converte-se em cordeiro, de lobo que era, e, suplicante e humilde, pede desculpas, dando por finda a audiência, com o protesto de pôr   fim ao incidente.”
Por essa forma, livrou-se Martins Lustosa de um processo iníquo, semelhante aos que levaram para a cadeia de S. João de El-Rei , por nove e dez anos, Valério Brandão e outros mineiros.”