Depoimento

Depoimento
(Folha de S.Paulo, 15/5/2011)
Eu já tinha provado outras drogas, mas quando provei crack, não consegui mais largar e fui ficando. Roubo um, enrolo outro e consigo dinheiro para comprar pedra. Senti aquela primeira brisa e quis de novo. Não quero saber se é óxi, ‘Hulk’ ou super Homem. Na fissura, não importa.
Não tenho porque ir embora. Tomo café da manhã e almoço de graça nas igrejas, mas eu só tenho fome antes de fumar. Depois, nem lembro de comer.
No final da tarde, os donos dos bares sempre distribuem salgadinho. Aqui também tem lugar onde tomar banho. Tem marmitex rolando 24 horas por aí.
Só uso roupa de marca. Ganho, troco por pedra ou roubo [mostra a etiqueta do jeans e da malha de lã de grifes conhecidas]. Os playboys só trazem coisa de primeira para a cracolândia. Com R$ 150, dá para encher uma mala de roupa boa. É melhor do que ser rico. Uso e jogo fora. Não lavo roupa. Tem coisa que eu pego ainda com etiqueta da loja.
Temos comida, dinheiro e droga. Só que tudo vem e vai muito rápido. Acaba e a gente tem que começar tudo de novo. É como diz o funk: ‘Na cracolândia, você vale o que tem. Então, aprenda a não confiar em ninguém’. Amizade aqui só se você tiver crack.


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