3/31/2011

Diretrizes


Médicos, a exemplo de juízes, gostam de defender-se de insinuações de conflito de interesses apelando para a razão.

Com efeito, nenhum profissional de saúde em seu juízo perfeito receitaria uma droga sabidamente pior só porque recebeu um brinde do laboratório que a fabrica.

Ainda que os médicos desprezassem solenemente seus clientes, não teriam nenhum interesse em arriscar suas reputações por um badulaque.

Ocorre que médicos, como juízes, são seres humanos, e, como demonstrou o neurologista António Damásio, são incapazes até de pensar sem mobilizar emoções e outras manifestações do cérebro primitivo, as quais influenciam sutilmente decisões que julgamos racionais.

Tal fenômeno ocorre pelas mais insuspeitas vias. Uma das formas pelas quais seres humanos entram em sincronia é através de discretas imitções de linguagem e expessões faciais. Um experimento de 2003 de Rick van Baaren monstrou que garçonetes que reproduzem palavras e trejeitos de fregueses obtêm mais gorjetas.

Médicos, é claro, não são uma exceção. Uma metanálise clássica publicada em 2000 no "Jama" concluiu que a distribuição de brindes, amostras grátis, refeições e subvenções para viagens têm indiscutível efeito.

Pagar uma viagem para um profissional aumenta entre 4,5 e 10 vezes a chance de ele receitar as drogas produzidas pela patrocinadora. Efeitos semelhantes foram medidos para cada uma das interações mais comuns entre médicos e industria. Esse marketing ativo é tão eficiente que se estima que as farmacêuticas a ele dediquem até 30% de seus orçamentos. Esse e outros efeitos dos processos inconscientes sobre a mente racional são tantos e tão poderosos que parte dos neurocientistas hoje sustenta que o livre arbítrio não passa de uma ilusão.

Fonte: Hélio Schwartsman - Folha de São Paulo.