Antonio José
Tinham decorrido os primeiros anos do século passado, quando uma infinidade de famílias do Rio de Janeiro foram arrebatadas e conduzidas presas para os cárceres de Lisboa. Essas prisões pareciam não ter fim, e o desespero do povo era já grande, quando Duguay Troin forçou a barra de Nictheroy: nem admira que, por ocasião desse ousado marítimo ocupar a cidade, houvesse nela nacionais, que fossem pedir à invasora bandeira de França asilo contra a ferocidade dos familiares do Santo Officio.E ainda bem que assim fizeram: pois os desgraçados que se pejaram de seguir tal exemplo, foram cruelmente recompensados de tal prova de patriotismo.
As prisões e remessas para a inquisição de Lisboa continuavam. Entre os remetidos em 1713 uma família chama agora a nossa atenção. Além de abastada, era das mais aparentadas no Rio de Janeiro, onde cada um dos dois esposos, naturais da mesma cidade, contava sete irmãos, em geral já casados e estabelecidos.
O chefe da família é o advogado João Mendes da Silva, a quem se atribuem varias poesias que nunca se imprimiram: sua mulher Lourença Coutinho vem acusada de culpas graves de judaísmo. Os dois filhos mais velhos apelidam-se com os nomes dos avós paterno e materno, André Mendes da Silva e Balthasar Rodrigues da Silva. O mais moço chama-se Antonio José da Silva, e tem apenas seis anos de idade, havendo nascido a 8 de Maio de 1705. Mas é justamente esta criança quem promoveu todo este preâmbulo; pois veio a ser nada menos do que o poeta, de que nos propusemos tratar no título deste artigo.
O pequeno Antonio José começou em Lisboa sua educação, enquanto a mãi soffria os tratos do Santo Officio por christã nova. – A final a pobre foi solta. E o jovem Antonio José, ainda que batizado na Sé no Rio de Janeiro, vendo-se agora só rodeado de cristãos novos perseguidos, e de judeus, foi-se imbuindo das doutrinas destes, até que as professou.
Foi a Coimbra estudar Cânones, e nem por isso mudou de crenças. Em 1725 estava de volta em Lisboa; e já advogava com seu pai quando aos 8 de Agosto foi agarrado para os cárceres da Inquisição. Tinha então 21 anos de idade, e o susto que lhe souberam incutir, e o modo como puseram em contribuição seu gênio dócil, fizeram que ele não só se descobrisse aos Inquisidores culpado, como delatasse alguns cúmplices. No exame de Doutrina que lhe fizeram errou alguns pontos. Sendo porém, a final, posto a cruéis tratos de polé sem nada mais revelar, propôs-se a fazer decidida abjuração; e aceita esta foi solto no auto público do mês de Outubro. No soffrimento dos tratos, que puseram o padecente na impossibilidade de assinar o seu nome, os Inquisidores tomaram nota de que o abjurado gritava por Deus, e não pela Virgem ou santo algum!...Antonio José apenas se viu fora daquelas paredes horrorosas, dispôs-se a cumprir com lealdade a abjuração que acabava de fazer. Começou a exercitar todas as práticas dos catholicos, fugiu do trato dos cristãos novos, freqüentando pelo contrário os conventos, e travando até amizade com alguns religiosos instruídos; pois o gosto pelas letras nele se desenvolvia de modo que a elas votava o tempo que lhe ficava, depois de trabalhar com seu pai na banca de advogado.
Antonio José morava com seu pai ao “Pateo da Comedia”, isto é, segundo imaginamos, ao pé do Teatro; e porque isso lhe facilitaria o frequentá-lo, ou porque para a cena o chamou a própria vocação, é certo que ele veio a dedicar-se à carreira dramática.
Algumas de suas comédias são Anfitrião, D. Quixote, Esopaida, Medéa e Phaetonte, que menciona Barbosa, e correm impressas. Outras há, como os Amantes de escabeche, S. Gonçalo de Amarante, etc. Se bem que a idade de 34 anos com que morreu (por não o deixarem viver mais) não nos permite crer que apesar de toda a sua fecundidade tivesse tempo para ser autor de mais obras.
“Toda a justiça acaba em tragédia” faz ele dizer a Sancho, e a ninguém melhor servia a carapuça que aos Inquisidores. Também é possível que pretendessem achar no Anfritrião alguma revelação dos tratos, que passara nos cárceres: o certo é que o tomaram à sua conta como passamos a ver.
Tinha-se Antonio José casado em 1734, com Leonor Maria de Carvalho. O teatro oferecia-lhe pasto intelectual, granjeava-lhe a afeição do monarca e bastante popularidade; e a filhinha e a mulher e a sua velha mãi constituíam-lhe todas as delícias do coração. Eis porém que aos 5 de Outubro de 1737, viu-se arrebatado subitamente por um familiar do Santo Officio.
Serviu de pretexto ao Inquisidores certa denúncia dada por uma preta de Cabo Verde, escrava de sua mãi, a qual segundo se provou depois, Antonio José castigara, por ser de má vida: este triste instrumento de vingança veio a pagar o mal, morrendo de susto no cárcere, onde fora trazida para ser interrogada. Não havendo capítulos de provas contra Antonio José, e não sendo possível tirá-los de suas obras devidamente licenciadas, tratou-se de lh’os orçar dentro dos mesmos cárceres. Foi metido n’uma casa que tinha buracos clandestinos para ser espiado, e os guardas que iam espionar reparavam em quando ele não comia, de certo porque a isso o não convidava o apetite, para irem depois depor que estavam persuadidos que o não fazia por jejuar judaicamente. Foram só tais depoimentos e os de um denunciante (que segundo parece de propósito lhe destinaram para companheiro) que este poeta foi condenado! E isto quando todas as testemunhas que convocou em sua defensa, entre os quais entravam frades, incluindo-se, até de D. Domingos, depuseram sua devoção pelo catholicismo, e attestaram seus bons costumes! Não somos nós que o dizemos: é o seu processo original, que chegou até nós, para podermos vingar a sua memória. Foi o empenho que consta haverem feito muitos grandes da época, incluindo o próprio rei D. João V, para o livrar. Mas que se lhe dava à Inquisição com o poder dos grandes e do rei, antes do Marquês de Pombal ?!...
Quando o nosso poeta por sua justificada inocência, quando seus amigos testemunhas que havia deposto a favor dele, julgavam-no talvez absolvido, lavrava-se-lhe a sentença tremenda de relaxação a 11 de Março de 1739. Mas ele nada sabia; e soffria resignado no cárcere número 6 do Corredor meio-novo, ora deitado em um sobrado, ora passeando com as mãos metidas, como tinha por costume, nas mangas do roupão azul forrado de encarnado, que usava enquanto preso. Mais de sete meses depois de sentenciado, a 16 de Outubro de tarde, foi-lhe feita a intimação, e entregue no Oratório aos cuidados do jesuíta Francisco Lopes. Passados três dias estava ele na Eternidade!... E o seu corpo queimado e convertido em cinzas e vapores... Deus tenha sua alma em gloria, pois ele já não era judeu! Era Antonio José de estatura mediana, alvo, de cabelo castanho escuro, de feições e cara miúda, e tinha pouca barba. (Florilegio da Poesia Brazileira - Pubicações da Academia Brasileira - R. Janeiro - 1946).
"A vida nunca foi fácil."
As prisões e remessas para a inquisição de Lisboa continuavam. Entre os remetidos em 1713 uma família chama agora a nossa atenção. Além de abastada, era das mais aparentadas no Rio de Janeiro, onde cada um dos dois esposos, naturais da mesma cidade, contava sete irmãos, em geral já casados e estabelecidos.
O chefe da família é o advogado João Mendes da Silva, a quem se atribuem varias poesias que nunca se imprimiram: sua mulher Lourença Coutinho vem acusada de culpas graves de judaísmo. Os dois filhos mais velhos apelidam-se com os nomes dos avós paterno e materno, André Mendes da Silva e Balthasar Rodrigues da Silva. O mais moço chama-se Antonio José da Silva, e tem apenas seis anos de idade, havendo nascido a 8 de Maio de 1705. Mas é justamente esta criança quem promoveu todo este preâmbulo; pois veio a ser nada menos do que o poeta, de que nos propusemos tratar no título deste artigo.
O pequeno Antonio José começou em Lisboa sua educação, enquanto a mãi soffria os tratos do Santo Officio por christã nova. – A final a pobre foi solta. E o jovem Antonio José, ainda que batizado na Sé no Rio de Janeiro, vendo-se agora só rodeado de cristãos novos perseguidos, e de judeus, foi-se imbuindo das doutrinas destes, até que as professou.
Foi a Coimbra estudar Cânones, e nem por isso mudou de crenças. Em 1725 estava de volta em Lisboa; e já advogava com seu pai quando aos 8 de Agosto foi agarrado para os cárceres da Inquisição. Tinha então 21 anos de idade, e o susto que lhe souberam incutir, e o modo como puseram em contribuição seu gênio dócil, fizeram que ele não só se descobrisse aos Inquisidores culpado, como delatasse alguns cúmplices. No exame de Doutrina que lhe fizeram errou alguns pontos. Sendo porém, a final, posto a cruéis tratos de polé sem nada mais revelar, propôs-se a fazer decidida abjuração; e aceita esta foi solto no auto público do mês de Outubro. No soffrimento dos tratos, que puseram o padecente na impossibilidade de assinar o seu nome, os Inquisidores tomaram nota de que o abjurado gritava por Deus, e não pela Virgem ou santo algum!...Antonio José apenas se viu fora daquelas paredes horrorosas, dispôs-se a cumprir com lealdade a abjuração que acabava de fazer. Começou a exercitar todas as práticas dos catholicos, fugiu do trato dos cristãos novos, freqüentando pelo contrário os conventos, e travando até amizade com alguns religiosos instruídos; pois o gosto pelas letras nele se desenvolvia de modo que a elas votava o tempo que lhe ficava, depois de trabalhar com seu pai na banca de advogado.
Antonio José morava com seu pai ao “Pateo da Comedia”, isto é, segundo imaginamos, ao pé do Teatro; e porque isso lhe facilitaria o frequentá-lo, ou porque para a cena o chamou a própria vocação, é certo que ele veio a dedicar-se à carreira dramática.
Algumas de suas comédias são Anfitrião, D. Quixote, Esopaida, Medéa e Phaetonte, que menciona Barbosa, e correm impressas. Outras há, como os Amantes de escabeche, S. Gonçalo de Amarante, etc. Se bem que a idade de 34 anos com que morreu (por não o deixarem viver mais) não nos permite crer que apesar de toda a sua fecundidade tivesse tempo para ser autor de mais obras.
“Toda a justiça acaba em tragédia” faz ele dizer a Sancho, e a ninguém melhor servia a carapuça que aos Inquisidores. Também é possível que pretendessem achar no Anfritrião alguma revelação dos tratos, que passara nos cárceres: o certo é que o tomaram à sua conta como passamos a ver.
Tinha-se Antonio José casado em 1734, com Leonor Maria de Carvalho. O teatro oferecia-lhe pasto intelectual, granjeava-lhe a afeição do monarca e bastante popularidade; e a filhinha e a mulher e a sua velha mãi constituíam-lhe todas as delícias do coração. Eis porém que aos 5 de Outubro de 1737, viu-se arrebatado subitamente por um familiar do Santo Officio.
Serviu de pretexto ao Inquisidores certa denúncia dada por uma preta de Cabo Verde, escrava de sua mãi, a qual segundo se provou depois, Antonio José castigara, por ser de má vida: este triste instrumento de vingança veio a pagar o mal, morrendo de susto no cárcere, onde fora trazida para ser interrogada. Não havendo capítulos de provas contra Antonio José, e não sendo possível tirá-los de suas obras devidamente licenciadas, tratou-se de lh’os orçar dentro dos mesmos cárceres. Foi metido n’uma casa que tinha buracos clandestinos para ser espiado, e os guardas que iam espionar reparavam em quando ele não comia, de certo porque a isso o não convidava o apetite, para irem depois depor que estavam persuadidos que o não fazia por jejuar judaicamente. Foram só tais depoimentos e os de um denunciante (que segundo parece de propósito lhe destinaram para companheiro) que este poeta foi condenado! E isto quando todas as testemunhas que convocou em sua defensa, entre os quais entravam frades, incluindo-se, até de D. Domingos, depuseram sua devoção pelo catholicismo, e attestaram seus bons costumes! Não somos nós que o dizemos: é o seu processo original, que chegou até nós, para podermos vingar a sua memória. Foi o empenho que consta haverem feito muitos grandes da época, incluindo o próprio rei D. João V, para o livrar. Mas que se lhe dava à Inquisição com o poder dos grandes e do rei, antes do Marquês de Pombal ?!...
Quando o nosso poeta por sua justificada inocência, quando seus amigos testemunhas que havia deposto a favor dele, julgavam-no talvez absolvido, lavrava-se-lhe a sentença tremenda de relaxação a 11 de Março de 1739. Mas ele nada sabia; e soffria resignado no cárcere número 6 do Corredor meio-novo, ora deitado em um sobrado, ora passeando com as mãos metidas, como tinha por costume, nas mangas do roupão azul forrado de encarnado, que usava enquanto preso. Mais de sete meses depois de sentenciado, a 16 de Outubro de tarde, foi-lhe feita a intimação, e entregue no Oratório aos cuidados do jesuíta Francisco Lopes. Passados três dias estava ele na Eternidade!... E o seu corpo queimado e convertido em cinzas e vapores... Deus tenha sua alma em gloria, pois ele já não era judeu! Era Antonio José de estatura mediana, alvo, de cabelo castanho escuro, de feições e cara miúda, e tinha pouca barba. (Florilegio da Poesia Brazileira - Pubicações da Academia Brasileira - R. Janeiro - 1946).
"A vida nunca foi fácil."
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